16/10/2018 - Por que as pessoas que falam o que pensam assustam?


Sinceridade é uma qualidade cotidianamente cobrada nas relações interpessoais, não apenas em nosso universo contemporâneo, como também retoma a uma necessidade histórica presente nas civilizações observáveis, seja nas relações familiares, profissionais ou afetivas.

 

Difícil encontrar alguém que duvide da assertiva acima mencionada, até mesmo os não praticantes da verdade (para não chamar de mentirosos), exigem que as pessoas ao seu redor não os enganem, ou seja, a mentira não agrada sequer o próprio mentiroso quando este se vê como vítima da mentira.

 

No entanto, causa perplexo e estranheza o fato de que vital qualidade, em excesso, é considerado um inconveniente ou até mesmo uma afronta, um ataque ao íntimo do interlocutor, principalmente a respeito de alguns temas que são quase proibidos em alguns meios como futebol, religião e política.

 

Diante tamanho paradoxo, indaga-se: porque a verdade em excesso se torna veneno?

 

Sinceridade pode ser resumida em dizer o que pensa, independentemente da preocupação com a sensibilidade do ouvinte.

 

O que tem marcado presença constante nos debates, tenha ele iniciado em uma conversa entre amigos, dentro de um grupo de estudo ou em redes sociais, é a existência de um lado que se sente ofendido com a posição contrária daquele que sustenta ideias antagônicas a sua, e tal sentimento de ofensa vem acompanhado dos mais variados disparates ao ponto de destruir a ponte do debate para transformá-lo em um combate de vida ou morte, em que se abandona a busca pela verdade para destruir a imagem do oponente, podendo causar, inclusive, o fim de um relacionamento.

 

Logo, diante dessas premissas se questiona: Por que é tão perigoso dizer o que se pensa? Por que ainda temos como um tabu opinar sobre determinados temas? Principalmente sobre questões como política?

 

É inegável o perigo que há em exercer o direito a livre expressão, uma vez que vem se tornando um hábito para várias pessoas, a necessidade de se esquivar de opinar sobre determinado assunto, não por desconhecimento ou ausência de opinião, mas por puro receio das reações das demais pessoas.

 

Detalhe importante é que, não interessa se suas ideias são expressadas de forma cordial e urbana, se emprega dados factíveis, se está sustentada em extensa biografia, interessa apenas se o ouvinte a aceita ou não, ou se o seu grupinho ao qual o ouvinte está inserido a considera como verdadeira ou falsa.

 

O fato de alguns indivíduos, sempre ávidos por pessoas verdadeiras, não conseguirem conviver com a opinião alheia pode ser explicado por várias vertentes, que pelo amor de Deus! Não teriam como ser exauridas no presente texto.

 

Entre tantas hipóteses, nos coube escolher a que demonstra ser a mais evidente, porém, pouco debatida, em face do limitado campo de visão a que a cultura intelectual do país está submergida: o ego.

 

O ego, não se preocupa com a busca pela verdade e sim com a vaidade de não permitir que alguém desafie a validade de nossas crenças.

 

Quem reage com violência física ou verbal diante opiniões contrárias, sejam de qualquer tipo de assunto, não o faz para proteger seus princípios ou por ideologia, e sim para proteger o próprio ego. Quanto mais se acha que sabe, maior o perigo de começar crer que não exista mais nada a ser aprendido.

 

O emprego de tais expedientes apenas comprovam a total ausência de argumentos para defender a própria tese. Quiçá, a verborragia empregada para atacar a imagem pessoal das pessoas só porque discordam em algum ponto, ao invés do emprego de argumentos, não tem o condão de construir um raciocino capaz de demonstrar que a ideia da parte contrária está equivocado e sim meramente de fazer CALAR!

 

Por sua vez, o fato de termos cada vez menos pessoas dispostas e capazes de expor as suas próprias opiniões destoante do pensamento da maioria, ocasiona o fechamento de nossa consciência para a diversidade de ideias nos fechando em universo particular, ficando cada vez mais acomodados pela busca de mais conhecimento.

 

Somente o debate amplo e aberto é capaz de tirar nosso raciocínio da acomodação.

 

A falta do confronto de ideias, do trânsito livre e pleno do contraditório, nos fazem crer que a nossa visão de mundo é a única e verdadeira e passamos a não aceitar as proposições contrárias as nossas crenças como verdadeiras independentemente dos argumentos invocados.

 

Ante esse apego, ao nosso mundo interior, qualquer opinião que se distancie de nossas crenças é visto como loucura, mentira, estupidez ou ataque pessoal.

 

Se realmente cremos que nossas ideias são verdadeiras, não se deve temer quando colocadas a prova diante de um raciocínio divergente.

 

E diante da acomodação, do desleixo de buscar conhecimento e de enfrentar outras verdades, ficamos com medo de ter nossos paradigmas desafiados e vencidos. Ter a nossa verdade questionada provoca instintivamente o desejo de defendê-la, o problema é quando essa defesa foge de uma linha argumentativa, ignorando a arte da retórica para fazer uso da agressão verbal ou de qualquer outro tipo de violência, ao até mesmo do uso da INTIMIDAÇÃO SOCIAL.

 

A intolerância demonstrada ao opositor que questiona nossa posição é fruto do medo de ter o nosso edifício de verdades e crenças abalados e demolidos porque é mais cômodo negar qualquer ideia divergente unicamente para nos protegermos.

 

Em outras palavras, a legítima defesa da verdade é configurada através dos meios empregados pelo debatedor para defender os próprios ideais, uma vez que não é coerente sair vencedor de um debate tolhendo o direito do opositor de expressar-se e quem foge dessa lógica demonstra que sua tese está sustentada apenas pelas próprias emoções e não sob a luz da razão empírica.

 

Em conclusão, é correto afirmar que pessoas que falam o que pensam causam medo somente a quem está emocionalmente preso as suas teses, pois a opinião antagônica tem o efeito de lhes machucar o ego e não a razão. Como bem já afirmou Nietzsche:

 

"Por vezes, as pessoas não querem ouvir a verdade,

 

porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas".

 

FONTE: poramoraodeate